Individual Rodolfo Mesquita

Certa inabilidade, e as invenções que dela decorrem, atravessam a obra de Rodolfo Mesquita. Qualquer coisa que se pareça com o voluntarismo atribuído ao “estilo” – com suas escolhas repletas de singularidade autoral – é, em verdade, invenção compulsória: o artista não sabe fazer de outro modo e está, assim, obrigado a ser como nos aparece. Nesse sentido, quando Rodolfo afirma sua inabilidade formal e seu não virtuosismo técnico, devemos entender que não se trata de uma”dificuldade em afirmar-se” como artista, mas, antes, de uma incomum disposição em enfrentar a difícil afirmação de uma subjetividade compulsoriamente alienada: nós não sabemos o que fazemos. Assim, uma visão política da história, da economia e do sujeito se presentifica em seu modo de entender e fazer arte: “Nós não somos mestres do que produzimos. O que produzimos se impôs a nós. Alguém que parte do nada, que tem consciência de que a verdadeira intuição artística deve sair do nada. (…) Desenhar só o que não sei. Rude prova de existência como quem diz ‘foi sem saber’”.

 

O que, na obra de Rodolfo Mesquita, poderia parecer um vago marxismo, recoloca-se, portanto, em precisa crítica política. O projeto doutrinário e voluntarista de quase todo o pensamento revolucionário de esquerda é secamente posto em perspectiva por uma obra que, cada vez mais, nada pretende afirmar. O artista responde à frustração generalizada diante “falência” da utopia socialista com um cotidiano trabalho de esvaziamento – ou, tomando de empréstimo um termo deleuziano, de esgotamento – do próprio pensamento utópico. Assim, se até meados dos anos 1990 o trabalho de Mesquita estava às voltas com um esforço de engajamento social, aos poucos a energia é tranposta para outro foco. O desaparecimento dos textos que ofereciam chaves de leitura de caráter habitualmente crítico e social; a paulatina ênfase sobre situações eminentemente corriqueiras (e, portanto, menos narrativas e/ou épicas); o surgimento de personagens menos socialmente demarcados (tantas vezes lidos como “idiotas” mas, fundamentalmente, equivalendo a “qualquer um”); o crescente protagonismo do fundo diante da figura e, com isso, a complexificação da espacialidade na obra do artista, são aspectos que evidenciam essa transformação. De modo geral, o artista esgota seus personagens e narrativas que, assim, diariamente mais socialmente desgarrados, tornam-se cada dia mais políticos.

 

Liberados de “ser alguém” (dessubjetivados, portanto) e habitantes de um espaço não ortodoxo –  ao passo que igualmente não demarcável –, seus personagens performam uma existência que, indisposta com meios e fins, com funções sociais ou vontades narcisísticas, tende a ser pura intensidade: gestos repetidos e sem sentido, olhares destituídos de ponto de fuga, caminhadas para lugar algum, quedas e saltos no vazio, verbalizações mudas – inutilidades que conferem caráter político à inabilidade. Igualmente inaptos, portanto, o artista e sua obra paulatinamente esgotam suas próprias possibilidades e, girando em torno de si mesmos, fundam uma experiência de imanência, de uma continuidade que só se faz porque é, por si, persistente.

 

Compreendendo que “sentir é não ter sensações, assim como pensar é não ter ideias”, a obra de Rodolfo Mesquita tem esgotado os substantivos e adjetivos de outrora para lançar-se a um vazio que, estando evidente na espacialidade em queda de suas obras recentes, está também próximo a Lygia Clark, para quem o “vazio-pleno contém todas as potencialidades. É o ato que lhe dá sentido”[1]. Para o artista, cujos personagens e espaços parecem ter esgotado todas as possibilidades, continuar inventando perdeu seu caráter de escolha e tornou-se ativamente compulsório: “Está em ação, processo em movimento, o verbo é dominante: você está fazendo”.

 

Texto de Clarissa Diniz

 



[1]           Lygia Clark no texto Do Ato (1965). Disponível em http://www.lygiaclark.org.br/arquivo_detPT.asp?idarquivo=18.

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