ATO-DESATO – CLARA MOREIRA

“Ato-desato”. Corpos que realizam movimentos, ações e gestos. Todos eles construídos por traços poéticos e afetivos que refletem sobre o próprio processo criativo e a prática do desenho. Essa é uma possível síntese para enxergar a nova exposição da recifense Clara Moreira. Ato-desato entra em cartaz na Galeria Amparo 60 nesta sexta-feira (18), sendo a primeira mostra individual com obras totalmente inéditas realizadas pela artista visual e desenhista. A curadoria é de Sofia Lucchesi.

 

A visitação acontece de 18 de junho a 16 de Julho, de segunda à sexta, das 10h às 18h.

 

Confira o texto curatorial da exposição:

 

“Ato-desato” ou sobre desenhar em primeira pessoa

Por Sofia Lucchesi

 

Entre o atado e o desatado, uma ação oculta. Entre o lápis e o papel, uma outra coisa.

Na obra que carrega o título-mote desta exposição, observamos dois momentos: um primeiro, onde as fitas que saem do peito tocam-se num nó que as selam, e um segundo, em que, apartadas umas das outras, desfazem os intricamentos que as prendem. Ali, entre uma imagem e outra, existe uma lacuna, um segredo não revelado ou simplesmente a ação que não podemos ver, mas que emerge em palavras no título dado pela artista: Ato-desato.

Esse mesmo entre-tempo oculto está presente no fazer do desenho de Clara Moreira. Entre a imagem mental previamente rabiscada na cabeça e o momento em que o lápis toca o papel, parece haver um lapso, um momento de quebra. Lança-se, então, a pergunta: quando um desenho começa a existir? Seria quando o lápis toca o papel? Seria antes, como ideia imaginada? Ou apenas quando um artista declara sua finalização?

Há ainda uma outra formulação para essa dúvida: um desenho só pode existir quando os olhos do outro pousam sobre a imagem desenhada, quando é entregue ao mundo e às subjetividades de novos sujeitos. Esse desejo latente de se comunicar persiste na poética de Clara Moreira, relevando-se nesta exposição em fios que interligam um elemento a outro ou que simplesmente se fundem. Como os elos ora encontrados, ora perdidos numa conversa ou numa relação, é justamente a fragilidade inerente à tentativa de comunicação que está exposta.

A vontade de se conectar ao outro surge não somente de maneira mais óbvia, nas ações em dupla ou em grupo em seus desenhos, pois é expressa também nos títulos de suas obras e nas falas do vídeo presente nesta mostra, escritos em primeira pessoa. Fala comigo, Ouço minhas lágrimas, Respiro minhas lágrimas… Clara não apenas escreve em primeira pessoa, mas desenha em primeira pessoa. É assim, então, que expõe a vulnerabilidade do fazer artístico e de seu lugar no mundo enquanto artista, ao desenhar-se desenhando um desenho que desenha – aqui parafraseando suas palavras no vídeo Diário para um desenho no espelho.

Voltando o olhar para si – tanto de maneira metafórica quanto literal, já que muitos dos seus trabalhos de pesquisa com o corpo derivam de consultas ao espelho, – Clara desenha em tom confessional, descortinando os véus da própria intimidade, e propõe um diálogo aberto. É a partir daí, então, que o sujeito singular – (eu) Ato-desato, (eu) Escuto minhas lágrimas – pode se tornar um coletivo: (somos) Muitas.

Atando e desatando os nós que conectam ou que aprisionam, o desenho se manifesta nesta exposição como catalisador deste e de outros diálogos. Sigamos, então, conversando.

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Segunda à sexta: 10h às 18h
(outros horários com agendamento prévio)

telefone: +55 81 3204-9207

whatsapp: +55 81 99986.0016

[email protected]

Rua Artur Muniz, nº 82, 1º andar, salas 13 e 14 (Entrada pelo restaurante Alphaiate)
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