Cássio Vasconcellos

Dríade #9

Viagem Pitoresca pelo Brasil #70 Dimensão75 x 112 cm, edição de 5 Dimensão100 x 150, edição de 5 Dimensão150 x 220 cm – edição única

Driádes #2 100 x 150 – edição de 5 150 x 220 cm – edição de 5

 

UÔIÔU, Cristiano Lenhardt

Seria a consciência um privilégio nosso, dos humanos, como prega sua definição no dicionário? Nos entenderíamos singulares em relação às outras existências justamente por isso? Por mais que muitos ainda acreditem nessa ideia, parece que a natureza tem nos dado recados que apontam a necessidade de seguirmos num caminho contrário. Num caminho de consciência da existência de outras consciências.  Essas questões mostram o quanto precisamos pensar sobre nossa relação com a terra e com todas as espécies que habitam esse planeta junto conosco. Os trabalhos apresentados por Cristiano Lenhardt, em UÔIÔU, nos levam a esse e a tantos outros questionamentos urgentes.

As oito obras que compõem a mostra são extremamente significativas de um momento específico da sua vida. Desde 2019, o artista mudou-se para um sítio, o Mundo Bicho, isolado, literalmente cravado numa reserva de mata atlântica, em São Lourenço da Mata. Lá não há natureza domesticada, roçados bem trilhados, monoculturas, há uma imersão no tempo, no ritmo, nos sons, nas formas de vida… A própria casa, uma intervenção humana, parecer se adaptar ao ambiente que vive e cresce ao seu redor. Trata-se de um processo de imersão e de convívio, de respeito, “de escuta às outras consciências além das humanas, no reino vegetal, animal, mineral”, nas palavras do artista.

É esse escuta que ele nos traz nas obras apresentadas em UÔIÔU. Se antes o artista compunha suas gravuras com papel e tinta, agora parte para o uso do linho, um tecido natural, também, dobrado e pigmentado com uma compostagem. Nesse novo processo, as incertezas aumentam. Sabemos pouco sobre o que aquele composto orgânico vai nos trazer.  Mas isso pouco importa. É o mistério de uma nova forma de conhecimento que nos traz novas sensações (interpretações).

As gravuras se completam através de uma delicada costura de placas de alumínio (vindas de latas consumidas pelo artista e separadas para reciclagem) sobre o tecido. Nelas, ele escreve seus Broto Cartas – outra pesquisa realizada há algum tempo e que ganha nova materialização e organicidade. A partir de uma palavra escrita e espelhada, ele traça desenhos (neste caso pequenos furos que remetem a mapas estelares, algo que dialoga também com trabalhos anteriores) que tornam aquela palavra ilegível, como as mensagens muitas vezes indecifráveis da natureza, e com toda sua complexidade. O próprio nome UÔIÔU é um desafio, um Broto Carta, um enigma que o artista nos apresenta. Se assemelham a totens, esfinges, oráculos, monolitos, entendidos como sujeitos dotados de consciência, bem como tudo que nos cerca, basta ter respeito e um olhar sem hierarquia.

Sim, porque para coabitar, não é necessário entender e racionalizar tudo. Sentir, escutar, conviver, já é suficiente. Lenhardt nos convida justamente a isso, não a decifrar suas esfinges, mas a escutá-las e senti-las. E através dessa escuta, entre iguais, podermos nos enxergar também como natureza sagrada.

Curadoria Mariana Oliveira

vídeo

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ATO-DESATO – CLARA MOREIRA

“Ato-desato”. Corpos que realizam movimentos, ações e gestos. Todos eles construídos por traços poéticos e afetivos que refletem sobre o próprio processo criativo e a prática do desenho. Essa é uma possível síntese para enxergar a nova exposição da recifense Clara Moreira. Ato-desato entra em cartaz na Galeria Amparo 60 nesta sexta-feira (18), sendo a primeira mostra individual com obras totalmente inéditas realizadas pela artista visual e desenhista. A curadoria é de Sofia Lucchesi.

 

A visitação acontece de 18 de junho a 16 de Julho, de segunda à sexta, das 10h às 18h.

 

Confira o texto curatorial da exposição:

 

“Ato-desato” ou sobre desenhar em primeira pessoa

Por Sofia Lucchesi

 

Entre o atado e o desatado, uma ação oculta. Entre o lápis e o papel, uma outra coisa.

Na obra que carrega o título-mote desta exposição, observamos dois momentos: um primeiro, onde as fitas que saem do peito tocam-se num nó que as selam, e um segundo, em que, apartadas umas das outras, desfazem os intricamentos que as prendem. Ali, entre uma imagem e outra, existe uma lacuna, um segredo não revelado ou simplesmente a ação que não podemos ver, mas que emerge em palavras no título dado pela artista: Ato-desato.

Esse mesmo entre-tempo oculto está presente no fazer do desenho de Clara Moreira. Entre a imagem mental previamente rabiscada na cabeça e o momento em que o lápis toca o papel, parece haver um lapso, um momento de quebra. Lança-se, então, a pergunta: quando um desenho começa a existir? Seria quando o lápis toca o papel? Seria antes, como ideia imaginada? Ou apenas quando um artista declara sua finalização?

Há ainda uma outra formulação para essa dúvida: um desenho só pode existir quando os olhos do outro pousam sobre a imagem desenhada, quando é entregue ao mundo e às subjetividades de novos sujeitos. Esse desejo latente de se comunicar persiste na poética de Clara Moreira, relevando-se nesta exposição em fios que interligam um elemento a outro ou que simplesmente se fundem. Como os elos ora encontrados, ora perdidos numa conversa ou numa relação, é justamente a fragilidade inerente à tentativa de comunicação que está exposta.

A vontade de se conectar ao outro surge não somente de maneira mais óbvia, nas ações em dupla ou em grupo em seus desenhos, pois é expressa também nos títulos de suas obras e nas falas do vídeo presente nesta mostra, escritos em primeira pessoa. Fala comigo, Ouço minhas lágrimas, Respiro minhas lágrimas… Clara não apenas escreve em primeira pessoa, mas desenha em primeira pessoa. É assim, então, que expõe a vulnerabilidade do fazer artístico e de seu lugar no mundo enquanto artista, ao desenhar-se desenhando um desenho que desenha – aqui parafraseando suas palavras no vídeo Diário para um desenho no espelho.

Voltando o olhar para si – tanto de maneira metafórica quanto literal, já que muitos dos seus trabalhos de pesquisa com o corpo derivam de consultas ao espelho, – Clara desenha em tom confessional, descortinando os véus da própria intimidade, e propõe um diálogo aberto. É a partir daí, então, que o sujeito singular – (eu) Ato-desato, (eu) Escuto minhas lágrimas – pode se tornar um coletivo: (somos) Muitas.

Atando e desatando os nós que conectam ou que aprisionam, o desenho se manifesta nesta exposição como catalisador deste e de outros diálogos. Sigamos, então, conversando.

TECNOLOGIAS DE GÊNERO – FEFA LINS

Na história da arte, pinturas de corpos quase sempre serviram para reforçar, com viés assumidamente didático, padrões de gênero, estética e comportamento. O pintor Fefa Lins vem se destacando no circuito das artes plásticas nacionais ao trazer autorretratos que rompem com essas vigilâncias hegemônicas sobre os corpos, trazendo visões não binárias em relação ao gênero e uma afetividade não heteronormativa de sexualidade. Entre a tradição e a ruptura, está a tecnologia. Fefa conquistou público, inicialmente, através das redes sociais e agora irá estrear a sua primeira exposição individual, Tecnologias de Gênero, com curadoria de Aslan Cabral, que fica em cartaz na Galeria Amparo 60, no Recife, entre 29 de abril a 28 de maio.

A mostra, que faz parte do projeto Mirada, uma parceria da galeria com a SpotArt, ocupa a primeira sala da galeria, reunindo obras de 10 x 10 até 1,5m. Para quem já conhece os trabalhos do artista pelas redes, será uma oportunidade de experienciar essas telas presencialmente e em conjunto.

Confira abaixo o texto curatorial da mostra, por Aslan Cabral e Fefa Lins:

Tecnologias de gênero, primeira individual do artista, apresenta 21 obras que trazem a pintura mais uma vez para o centro da discussão artística contemporânea.

De maneira inovadora, aqui o poder hegemônico e ancestral da pintura figurativa serve agora às investigações sobre a diversidade e possibilidades de corpos e sexualidades localizados fora das normas sociais estabelecidas em nossa sociedade ocidental colonizada. Tendo como ponto de partida a reflexão sobre afetos e desejos, a obra do artista materializa investigações intimamente ligadas à sua vivência enquanto pessoa dissidente do sistema sexo-gênero.

Por meio de pinturas, serigrafias e escritos, o artista abre fendas que nos permitem acessar fragmentos de intimidades de um universo não apenas anormal, mas excluído das narrativas dominantes na história da arte. As obras colocam em evidência experiências que têm sido sistematicamente enclausuradas e mantidas longe dos olhares públicos, como a desobediência tomboy, a melancolia lésbica, a libidinosa broderagem transmasculina, as frustrações das feminilidades impostas e a impossibilidade da masculinidade ideal.

O título da exposição Tecnologias de Gênero tem como inspiração o trabalho de Teresa de Lauretis, que, a partir da linha foucaultiana, defende tecnologia enquanto um instrumento de produção de subjetividades, aliada aos discursos e relações de poder. A “tecnologia do gênero” então é responsável por produzir sujeitos binários – homens e mulheres, meninos e meninas – através de técnicas, procedimentos, práticas e discursos.

Título e obras da exposição guiam para discussões sobre campos transversais que influenciam diretamente nos rumos das culturas da humanidade. A investigação dentro do campo da pintura figurativa é inevitavelmente posta em diálogo com os milhares de anos de tradição dessa arte. que tem sido historicamente utilizada como ferramenta de ostentação, controle de corpos e territórios, mídia, tecnologia de transgressão e mudança de perspectivas.

Tomando frente à contemporaneidade dos gêneros artísticos da pintura figurativa com quem dialoga, não coincidentemente a obra do artista vai de encontro às questões e tecnologias presentes na história. Com essa exposição, os meios da arte e das coleções são guiados para fora dos campos de discriminação, controle, estigmatização e violência que recai sobre essa
nova vanguarda.

Celebramos com esse evento a sorte de termos em nosso time um artista com a técnica, o foco e a singularidade de Fefa, que é, sobretudo, um pintor ultrapaixonado pelas possibilidades de umas das vertentes mais tradicionais do mundo, a pintura a óleo.

A Tecnologias de Gênero, de Fefa Lins
Curadoria: Aslan Cabral
Abertura: 29 de abril de 2021
Encerramento: 28 de maio de 2021
Agendamento de visitas: (81) 99986-0016 ou (81) 3033-6060
Onde: Galeria Amparo 60 – Rua Artur Muniz, 82, salas 13 e 14 – Boa Viagem, Recife
https://www.spotart.com.br/galerias/amparo60
https://www.instagram.com/amparosessenta/
https://www.facebook.com/amparosessenta

A VIRULÊNCIA DA ARTE – PAULO BRUSCKY

 

A mostra “A virulência da arte” traz um olhar sobre a pandemia do coronavírus e a importância das criações artísticas para enfrentar este momento

Uma das lições do atual período de pandemia é a importância da arte. O que seria do período de isolamento social sem ela? A importância e a presença da arte é algo que acompanha o trabalho do artista multimídia Paulo Bruscky há décadas e norteará também a exposição   “A virulência da arte”, a ser inaugurada nesta quinta (28), na Galeria Amparo 60. São  arte-classificados, colagens e uma performance – todos inéditos –, sob curadoria de Mariana Oliveira. A exibição fica aberta ao público até o dia xxx, tanto no espaço físico da Amparo quanto em suas redes sociais e no site da SpotArt, parceira da iniciativa e responsável também pela expografia da mostra, através do site https://www.spotart.com.br/galerias/amparo60.

 

Bruscky conta que começou a produzir as peças em março do ano passado, quando foi visitar sua filha e o neto recém-nascido em Paris, época em que o coronavírus começou a se disseminar por todo o mundo. “Foi um grande impacto não só para mim, mas para a humanidade. Quando estávamos tendo tantas conquistas com a tecnologia, somos pegos por essa peste”, lembrou. O artista desembarcou no Brasil em abril e finalizou as colagens já sob o impacto do avanço da pandemia em todo o mundo. “Neste momento de isolamento social, tenho trabalhado muito, chego cedo ao ateliê e passo o dia lá em plena produção. No caso das colagens, inicie o processo no computador com minha filha, na França, e terminei no meu retorno ao ateliê, com a inserção de outros elementos”,

 

A exposição tem um forte caráter político e o descontentamento do artista com a postura do governo em relação a este momento está retratado bem diretamente em uma das colagens e na serigrafia, preparada com exclusividade para a mostra. Trata-se de uma bandeira do Brasil rasgada e despedaçada ligada a frase: “O que nos espera?”. “Eu tinha essa bandeira há tempos, depois folheando uma revista, encontrei a frase completa, e a partir desses dois elementos saiu essa obra que representa muito bem a exposição como um todo”, conta Bruscky. “Essa colagem é bem forte e mostra o sentimento que vivemos neste momento de incertezas, em que mesmo com as vacinas, temos uma liderança nacional negacionista e que trabalha contra a população e a ciência. Para onde vamos? O que nos espera? Como sempre faz, Bruscky nos provoca”, diz a curadora Mariana Oliveira.

 

O artista também se dedicou a produção de Arte Classificados, fazendo publicações e intervenções que chamavam atenção para as angústias do momento, para a solidão e para o papel que a arte tem. Num dos classificados ele vaticina: “A virulência da arte é maior que a solidão do coronavírus”. Numa outra ação, ele convoca a população a prestar uma homenagem aos profissionais de saúde da linha de frente. “Mesmo perante toda essa ausência – principalmente governamental – eles arriscam suas vidas para salvar as nossas. Por isso, fiz a arte classificada Poesia Sonora, convidando as pessoas e instituições a fazerem barulho para homenagear essa categoria tão importante”, lembra o artista.

 

Em uma performance também inédita, realizada neste mês de janeiro na galeria, documentada em vídeo especialmente para a mostra, Bruscky volta a questionar o papel da arte e sua perenidade. Haja o que houver, passe o que passar a arte fica. “A Virulência da arte é uma ode a isso, a presença, a permanência e a essencialidade da arte nas nossas vidas. Ideia que aparece recorrentemente em seus trabalhos. Ele já nos perguntou na década de 1970: ‘o que é a arte e para que serve?’”, destaca a curadora. “A gente está vivendo numa sociedade tão autômata, que simplesmente não pensa, e que agora se vê obrigada a refletir, em meio a essa pandemia”, complementa o artista.

 

A expo faz parte do projeto Mirada, idealizado pela galerista Lúcia Costa Santos em parceria com a SpotArt. A ideia é, a partir da mirada, do olhar, pelo espaço reduzido, mas que é, ao mesmo tempo, uma vitrine, ampliar o alcance das obras. A iniciativa, que nasceu neste momento de pandemia, tem um caráter virtual muito forte, aliado a possibilidade do presencial. Esta será a segunda exposição do projeto que vai se estender ao longo de 2021.

 

Para Ricardo Lyra, um dos sócios da SpotArt, a parceria com a Amparo 60 no projeto Mirada é a confirmação de um trabalho de cinco anos. “Tanto a mostra de Marcelo Silveira que deu início ao projeto (realizada no ano passado) como a de Paulo Bruscky e as demais que estão por vir, abrem um caminho na arte contemporânea para o SpotArt”, afirma. “Com Paulo Bruscky estamos tendo uma vivência ou uma imersão neste novo mundo. Todo seu conhecimento, sua forma de criar e apresentar sua obra está sendo bastante enriquecedor”.

SERVIÇO

A virulência da Arte, de Paulo Bruscky

Curadoria: Mariana Oliveira

Abertura: 28 de janeiro de 2021

Encerramento: 26 de fevereiro

Agendamento de visitas: (81) 99986-0016 ou (81) 3033-6060

Onde: Galeria Amparo 60 – Rua Artur Muniz, 82, salas 13 e 14 – Boa Viagem, Recife

https://www.spotart.com.br/galerias/amparo60

https://www.instagram.com/amparosessenta/

https://www.facebook.com/amparosessenta

Segunda à sexta: 10h às 18h
(outros horários com agendamento prévio)

telefone: +55 81 3204-9207

whatsapp: +55 81 99986.0016

[email protected]

Rua Artur Muniz, nº 82, 1º andar, salas 13 e 14 (Entrada pelo restaurante Alphaiate)
Boa Viagem | Recife | Pernambuco