Fefa Lins

Maravilhosa Catástrofe

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  • Data

    03/06/26

  • Artista

    Fefa Lins

  • Curadoria

    Guilherme Morais

Pra tristeza e glória dessa vida

Deixa o mar ferver, deixa o sol despencar

Deixa o coração bater, se despedaçar

Chora depois, mas agora deixa sangrar

Deixa o carnaval passar¹

A passagem mais emblemática da vida de Santo Antão foi sua abnegação frente às tentações que o cercaram. Michelângelo pintou o eremita suspenso no ar, incorruptível frente às investidas de bestas e víboras aladas, escamosas e peludas. Fefa Lins responde a esta imagem na tela Encontre a beleza da fera (Tormentos de Santo Antão). Nesta contraparte, no lugar de Antão, o artista se autorretrata a levitar, nu, sobre o centro do Recife. O semblante desse Fernando em óleo, porém, não transmite renúncia, mas êxtase, autorizando o contato das estrepitosas criaturas em regozijo. Fefa doa seu corpo às quimeras, ávidas para tocarem, com as lâminas que têm em mãos, a pele que repuxam.

Facas são imagens recorrentes na pintura de Fernando, associadas àquela que incisou a carne de seu torso durante a mastectomia. Enquanto pessoa transmasculina, o pintor fabula um uso dissidente da autorretratística. Abre fendas nos códigos corporais legitimados pela história da arte, inoculando-se nas pinturas que produz.

Nesta mostra, convivem autorretratos grandiloquentes, em que o artista se encena no óleo. Em Fios de Alizarina o corte cirúrgico é espelhado pelo gesto pictórico. Se neste trabalho vemo-lo reclinado, numa pose atribuída, na história da arte eurocêntrica, à passividade e à erotização, noutros podemos encontrá-lo verticalizado, como em sua versão de São Sebastião. Mas a postura heroica não se apresenta como oposto à horizontalidade. Fernando tem gosto por embaralhar os códigos da pintura de retrato e reinscrever sua corporalidade através desta antiga tecnologia de gênero. Ao passo que, na primeira, ergue uma faca perpendicular à orientação de seu corpo, na segunda se vale da dimensão homoerótica da iconografia do célebre mártir cristão.

Há também pinturas embriagadas do carnaval de Olinda. Muitos foram os artistas que retrataram o festejo na história da arte pernambucana. Bajado, Cícero Dias, José Cláudio e Tereza Costa Rêgo são exemplos. Mas Fernando representa-se na multidão, oferecendo-nos pontos de vista enevoados de um bloco de rua. O que significa representar-se na folia? O artista se reelabora em meio à troça, onde a suspensão provisória da norma toma as ruas, fazendo com que sujeito e coletivo se confundam aos sons de clarins e sirenes voláteis.

Com o teor lumínico e cromático dos trópicos, as pinturas não convergem apenas para um Fernando progressivamente solar. Conectam-se por uma sensibilidade exacerbada, projetada tanto na teatralidade e nos maneirismos que ecoam saberes coreografados por corpos queer, quanto na abertura ao encontro, ao prazer e à indeterminação da massa brincante. Em Fefa, entrega e ímpeto operam como gumes de uma mesma faca. Sua pintura faz ruir um pedaço de mundo para, sobre esses escombros, entre a desgraça e a glória de viver, cair em festa.

Guilherme Moraes

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