Terravulta
Anti Ribeiro, Cristiano Lenhardt
13/08/26
Anti Ribeiro, Cristiano Lenhardt
Data
13/08/26
Artistas
Anti Ribeiro, Cristiano Lenhardt
Curadoria
Rita Vênus
A trama vegetal dos tecidos absorve, retém e projeta em sua malha a fantasmagoria detrítica do mundo. Tudo que é decomposto, é também sorvido e devolvido em formas de brilho, vultos, corrosão. Em um diálogo inédito entre os artistas Anti Ribeiro e Cristiano Lenhardt, a mostra apresenta um conjunto de trabalhos recentes produzidos numa espécie de terravultagem conjunta das superfícies, nas quais a terra é a matriz de toda gravação, a partir das matérias ferruginosas, cerâmicas e fúngicas incorporadas.
Nas obras de Anti Ribeiro, essa relação passa pelo ferro e pelo som. Objetos industriais descartados, recolhidos antes de desaparecerem sob a prensa, retornam como escultura sonora. A ferrugem, por sua vez, é incorporada como procedimento para a corrosão induzida que transfere suas marcas no tecido, fazendo da oxidação uma espécie de gravação. Essa corrosão deixa de acontecer apenas sobre o ferro e passa a ser usada pela artista como uma ferramenta de impressão para as monotipias, fazendo com que o tempo e a ação do metal permaneçam inscritos no tecido.
No trabalho de Cristiano Lenhardt, os tecidos recebem pigmentos como argila e chorume dos carás e, à medida que acumulam cor e textura, são cortados, deslocados e costurados. Sobre essas superfícies repousam formas cerâmicas, metálicas e pictóricas, que criam relações entre planos e volumes distintos. As composições abrem como portais vúlticos sobre a tela em suas concentrações de matéria amalgamada que avançam sobre nós como o mais brilhante fantasma.
É nesse campo de superfícies transformadas que os trabalhos encontram sua mais acentuada aproximação. Mesmo partindo de matérias e procedimentos distintos, é na ação detrítica que vão encontrar caminhos para as suas aparições. A exposição nomeia esse movimento em comum, que também pode ser lido como um verbo terravultar, para essas composições hospedeiras que, por induções ou revelias, e retidas nas telas como pórticos ou rajadas metálicas no espaço lançam vultos no campo mais fundo da nossa retina e no canal mais abissal dos nossos ouvidos.
Rita Vênus
Curadora